Influenciada pelo aumento das taxas de juros, a intenção de consumo atinge o menor patamar em dois anos

Famílias Brasileiras Demonstram Cautela no Consumo em Setembro, Aponta CNC

A mais recente pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) sobre a Intenção de Consumo das Famílias (ICF) revelou uma queda de 0,9% em setembro, comparado ao mês anterior. Com esse resultado, o índice atingiu 101,6 pontos, o menor nível desde julho de 2023, sinalizando uma tendência de retração no otimismo dos consumidores.

Segundo a CNC, essa redução reflete o aumento da taxa de juros e o elevado nível de endividamento das famílias, fatores que têm contribuído para um comportamento mais cauteloso. Como consequência, há uma menor disposição para realizar compras de bens de maior valor, como eletrodomésticos e automóveis, que normalmente são adquiridos por meio de parcelamentos.

A análise mostra que essa perda de confiança afeta todas as faixas etárias e rendimentos. Lares com renda inferior a 10 salários mínimos tiveram uma diminuição de 0,8% em relação ao mês anterior e de 1,4% na comparação com o mesmo período do ano passado. Já as famílias com renda superior a 10 salários mínimos apresentaram uma retração mais significativa de 3,4% na variação anual e de 1,4% na mensal.

José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, destacou que o cenário indica uma apreensão das famílias quanto à continuidade da geração de empregos, além de restrições no acesso ao crédito e juros elevados, fatores que limitam o consumo e reforçam a necessidade de preservar o poder de compra da população.

No entanto, o acesso ao crédito apresentou um cenário paradoxal. Apesar de uma alta de 1,5% no índice de facilidade de obtenção de crédito em comparação ao mesmo período do ano passado, chegando a 33%, a maior desde abril de 2020, esse aumento não se traduziu em maior consumo. Em relação a agosto, houve uma queda de 0,6%, refletindo a cautela dos consumidores frente ao aumento do endividamento e ao risco de inadimplência.

João Marcelo Costa, economista da CNC, comentou que, embora a percepção de maior facilidade de acesso ao crédito tenha aumentado, seu uso permanece restrito devido às condições de juros elevadas e ao risco financeiro. “Existe um paradoxo: os consumidores percebem que podem obter crédito mais facilmente, mas optam por não usar essa possibilidade, em função do cenário de risco,” explicou.

Em resumo, o cenário aponta para uma fase de incerteza econômica, na qual as famílias estão mais receosas, priorizando a preservação de suas finanças diante de um ambiente de juros altos e perspectivas de estabilidade no mercado de trabalho. A atenção agora recai sobre a necessidade de políticas que possam estimular o consumo e garantir o equilíbrio financeiro das famílias brasileiras.